Quadro clínico: alergia à neutralidade

Eu gosto de pesquisar - coisa boba, assim, de fazer uma pergunta sem quê nem pra quê. E hoje em dia é bem mais fácil - não tem porque ficar horas numa conversa vendo egos desgastarem para saber quem está certo - alguns toques numa tela plana resolvem querelas que antes separavam amigos.

Um pouco por gosto, por convivência e por ofício, pesquisa é uma coisa que está no meu dia a dia. E acaba sendo uma forma de encarar a vida também. E quando digo isso, não estou falando só da pesquisa acadêmica - essa que ao mesmo tempo que nos brinda pérolas, é capaz de automatizar pessoas (pode falar isso sem ter a bolsa suspensa, produção?). Estou falando de uma postura de ver o mundo - estou falando de curiosidade. De busca e descoberta.


Parto do princípio que é impossível descobrir algo sozinho - ainda que alguém se pense genial, só o fato de vivermos na coletividade permite alguém ser quem é - falar, comer o que come (se come), viver como vive, fazer suas escolhas. Se é inviável ser quem se é por isolamento, ouso dizer que é impossível haver duas visões idênticas sobre qualquer questão - ainda que possuam pontos em comum. E se é pra ser mais ousada ainda, se existe toda uma constelação de possíveis visões sobre determinado aspecto, uma visão neutra não passa de utopia asséptica.

Por isso que essa primeira postagem do blog é um convite à alergia (não que eu te deseje tristeza, mas está escrito alergia mesmo). Convido você a compartilhar comigo da alergia à neutralidade. Alergia à neutralidade é uma síndrome que  ataca aquelas pessoas que tomam partido, assumindo as consequências das atitudes tomadas. Em geral apresentam intenso prurido em contato com a cobertura jornalísticas dos grandes veículos de comunicação. É comum apresentarem fortes complexos de rechaço ao autoritarismo. Já foram relatados casos gravíssimos de brotoejas, sobretudo na exposição a machismo, racismo, homofobia e intolerância. Há até mesmo casos que evoluem para o rompimento de relações, quando a neutralidade é utilizada para justificar desigualdades.


Alguns, fortemente contaminados pelo discurso "imparcial" já pararam de ler bem acima. Outros, que chegaram até aqui podem estar pensando que defendo particularizar todas as questões, defender o relativismo de toda e qualquer opinião, ou então uma verdade absoluta - a manipulação como método. Nada mais falso. A alergia à neutralidade, na minha opinião deveria ser um princípio dos mais saudáveis, desde a tenra infância. Consiste de uma atitude simples: duvidar. Aliás, eu acho que a ciência é exatamente isso - colocar as certezas em suspenso. Mas estamos muitas vezes ocupados demais tentando provar verdades para duvidar das certezas.

Por isso que "pequei na pesquisa". Porque se pecar é negar o Absoluto, pode abrir caminho para as pequenas pesquisas - essas, cuja coleção consiste o maravilhoso álbum de nossas vidas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carta a uma professora dos Estudantes da Escola Barbiana

Programação do Seminário Integrador - Módulo Interdisciplinar para o Ensino de Biologia VIII - 2016/1

O negacionismo do distanciamento social teve seu ponto de virada